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Modelo mato-grossense viciada em crack volta a ser destaque na Veja SP




Em recuperação desde de 2014, a modelo de Mato Grosso Loemy Marques, caminha para a etapa final do processo bem sucedido de reabilitação, em uma clínica de São Paulo. Ela viveu por mais de dois anos nas ruas da Cracolândia e ficou conhecida depois que sua história foi descoberta pela Veja, e publicada como matéria de capa em novembro de 2014. O caso voltou às páginas da publicação e ganhou destaque na edição de sexta-feira, 16 de janeiro.

A ex-modelo ganhou repercussão nacional e foi requisitada em vários programas. Em sua primeira entrevista, no programa do apresentador Rodrigo Faro, ela ganhou um tratamento com os custos pagos pela produção.

Leia a íntegra da matéria veiculada na Veja São Paulo:

“Alguns de nós chegam à recuperação muito assustados e inseguros (...) queríamos aquele sentimento de proteção e força. Mas a fé não vem da noite para o dia. É preciso tempo e esforço para ela crescer.” A sentença consta de um dos capítulos do livro Só por Hoje — Meditações Diárias para Adictos em Recuperação, editado pelo grupo Narcóticos Anônimos.
A obra é lida em voz alta por Loemy Marques, de 26 anos, aos colegas durante a sessão matinal de espiritualidade na moradia assistida Reintegra Residência Terapêutica, no Jabaquara. A construção de dois andares e 142 metros quadrados recebe usuários pós-internação e lhes dá apoio para que consigam emprego e recomecem a vida.

A ex-modelo, que viveu por mais de dois anos nas ruas da Cracolândia e ficou conhecida depois de uma reportagem de VEJA SÃO PAULO, frequenta o local há dois meses. Trata-se de uma das últimas etapas de sua luta pela recuperação, processo que, até aqui, vem sendo bem-sucedido.

Ela acorda por volta das 8h30 e toma uma dose de fluoxetina, medicação indicada para estabilizar o humor (além desse remédio, usa à noite o antidepressivo Donaren, receitado por um psiquiatra). Sua primeira tarefa do dia consiste em arrumar a suíte de 20 metros quadrados que divide com Candice Priscila Dugaich, 34,sua acompanhante terapêutica e também ex-usuária de drogas que perambulou pela Cracolândia bem mais tempo que acompanheira de quarto (doze anos, no total).

Na sequência, as duas seguem juntas para a academia do lugar para fazer sessões de aeróbica e musculação. “Cheguei a pesar 89 quilos porque substituía o vício do crack pela comida, mas já perdi 4”, comemora Loemy, que tem 1,79 metro de altura. “Quero emagrecer ainda outros 10.” Uma vez por semana, ela também é designada para fazer o almoço para outros cinco dependentes em recuperação na casa, além de lavar roupa.

Dias depois que sua história veio a público, em novembro de 2014, a ex-modelo aceitou o convite do programa Hora do Faro, da Record, que se ofereceu para pagar seu tratamento e acompanhar o processo de recuperação.

Vinda do interior de Mato Grosso, Loemy desembarcou em São Paulo em 2012 para tentar a carreira de manequim. Sem conseguir trabalho por aqui, viciou-se em drogas, perdeu tudo e foi parar nas ruas do centro. “O abuso que ela sofreu do padrasto quando criança foi o fator preponderante no uso das drogas”, entende a psicóloga Joana d’Arc Salgado, uma das profissionais que cuidam do caso.

O processo de reabilitação vem sendo realizado em etapas. A primeira delas envolveu uma internação de oito meses em duas clínicas: a Aliança Terapêutica, em Sorocaba, e a Grand House, em Mairiporã.

A ex-modelo progrediu no tratamento e foi transferida para a moradia assistida Vale Verde, em Atibaia, onde passou a ter mais liberdade (ganhou o direito a saídas para locais próximos, como a igreja).

Nessa fase, porém, seus hábitos mudaram, o que fez acender a luz amarela entre a equipe médica. “Ela ficou mais agitada, impacientee intolerante”, conta Sérgio Castillo, diretor da Grand House. “Começou, inclusive, a repetir comportamentos da época da Cracolândia, como andar com cobertor nas costas.”

Para contornar o problema, a paciente foi reinternada em Mairiporã. “Eu sentia muita tristeza porque ainda não podia fazer o que queria, que era ver gente, ir para a balada e trabalhar”, lembra Loemy. Sessenta dias depois, a ex-modelo recebeu autorização para retornar a Atibaia. Ali, começou a ensaiar sua volta ao mercado detrabalho.

Enviou vários currículos na região e acabou sendo chamada para dar expediente na Cantina Italiana Província Di Lucca. “Ela começou lavando louça, muito disposta e animada, e logo a coloquei para ajudar na cozinha, pois vi que tinha habilidade”, diz o proprietário André Fabiano. “Foi uma fase legal, aprendi até a fazer molho pesto”, conta Loemy.

Devido ao saldo positivo da experiência, a equipe médica avaliou que ela poderia sair do interior e ir para São Paulo. Na capital, Loemy conseguiu vaga no café bistrô Cereja Flor, no Tatuapé, mas foi demitida após um mês e meio. “Não aguentei o ritmo”, diz.

Na segunda (11), iniciou a rotina como atendente de consultório em outro emprego no mesmo bairro da Zona Leste, após aceitar a propostade trabalho de Carlos Eduardo Solimeo, o dentista que fez voluntariamente seu tratamento dentário quando ela chegou à capital. A ex-modelo receberá 1 200 reais por mês na empresa de planos odontológicos, mas enxerga um valor bem maior nessa chance. “Quero voltar a ter uma vida normal”, afirma.

No retorno à metrópole, Loemy recuperou também o acesso à televisão e à internet, restrito anteriormente por normas do tratamento clínico. “Tomei um susto no Facebook ao ver mais de 1 000 solicitações de amizade”, conta. Ela recebe mensagens de apoio e relatos de pessoas que passam por problemas com drogas. “Tento responder a todo mundo.”

O tratamento deve durar por mais um ano dentro da moradia no Jabaquara. Se a história da ex-modelo tem possibilidades reais de mudar, o mesmo não ocorre com a da Cracolândia, pelo menos a curto prazo. De um ano para cá, o chamado fluxo, a aglomeração de viciados, continua igual, com cerca de 500 pessoas. Elas só trocaram de local. Antes, estavam entre a Alameda Cleveland e a Rua Helvetia. Agora, tomam a Alameda Dino Bueno. À luz do dia, as pedras da droga são vendidas em mesas montadas debaixo de guarda-sóis ou barracas, a menosde 100 metros de uma base da Guarda Civil Metropolitana.

Fonte: ADRIANA FARIAS Veja São Paulo Foto: Adriano Conter/Mario Rodrigues
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