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O cemitério está cheio de insubstituíveis




Observar e admirar minúcias que nos cercam continuamente está entre as coisas que mais alegram o espírito e enchem a alma de satisfação. Episódios corriqueiros do dia a dia, aparentemente sem importância, quando bem apreendidos podem nos inspirar ensinamentos e eventualmente servir para uma crônica ou um artigo. Foi o que se deu comigo nestes últimos dias.

Em troca de correspondência com um muito estimado amigo de décadas, ele no Velho Mundo e eu por estes Brasis, lamentávamos o abandono, por parte de um terceiro, de trabalhos muito importantes para todos nós. Igualmente deplorávamos essa atitude pelo modo como era feita e como nos deixava embaraçados para encontrar alguém que substituísse aquele terceiro.

Depois de trocarmos impressões, lembrou-me ele o conhecido ensinamento de que ninguém nesta vida é insubstituível, nem o personagem em questão, nem qualquer um de nós. Princípio este muito valioso para quem quer progredir na humildade e na despretensão.

Concordava plenamente com este meu amigo; e para consolá-lo um tanto, pois era ele o mais prejudicado na situação, enviei uma frase que aprendi desde meus tempos de adolescência: “o cemitério está cheio de insubstituíveis”. Para meu contentamento, respondeu-me demonstrando a satisfação que sentira em conhecer tal ditado, acrescentando que o incluiria em seu “documento Phrases”. Por mais simples que fosse, causou-me real alegria a satisfação de meu amigo.

Não sei por que razão, o assunto foi e voltou em minha mente e deu motivo para não intencional meditação. Perguntava-me: somos realmente insubstituíveis?

Aqui vai um pouco de doutrina elementar, propriamente catecismo.

Por um lado, podemos dizer que sim. Em matérias práticas, funcionais, como no caso objeto de nossas lamentações, somos substituíveis e muitas vezes com facilidade. Em matérias outras, não.

Quem, em certos momentos, não tem necessidade premente do apoio de um bom conselho, de um amparo, de um socorro? Nessas ocasiões aflitivas, quem substituirá uma terna e virtuosa mãe, um bom mestre, um bom conselheiro, principalmente um prudente diretor espiritual?

Pasteur


Pasteur, Fleming e muitos outros não apareceram, para a Humanidade, na hora “h”? Seriam substituíveis por alguém à altura e com total acerto?

Transcendamos ao sobrenatural. Cada um de nós é único na obra de Deus. Fomos criados para refletir, individualmente, uma qualidade especifica Sua. Disto raramente nos orgulhamos ou nos envaidecemos. Se não correspondermos ao que Deus Nosso Senhor espera de nós, seremos substituídos a contento? Sua obra relativa a nós não estaria falha para sempre?

São João Bosco


Imagine-se que tivesse falhado em sua correspondência à graça um São Tomas de Aquino, um São Francisco de Assis, um São João Bosco. Seriam substituídos à altura? Sendo cada um destes luminares – e quantos outros não houve? – planos “A” da Providência Divina, não tendo correspondido, Nosso Senhor os substituiria por um plano “B” ou por um plano “A+A”? São mistérios que só desvendaremos no dia do último juízo.

Outro assunto relacionado e não menos interessante. Ouvia há tempos palestra de um grande mestre da vida espiritual. Analisava ele um eminente personagem, que, segundo tudo indicava, sobressairia como uma grande vocação. Decaiu e levou uma vida moral bem longe de Deus Nosso Senhor. Comentava aquele mestre: “as coisas de Deus são tais, que se esse personagem rezasse determinada oração, bem rezada, recuperaria toda sua vocação e ainda mais”. Achei bem acertado esse comentário e muito apropriado a aumentar em nós a virtude da confiança. Não foi o que aconteceu com o bom ladrão, São Dimas, nos últimos instantes de sua existência? Primeiro santo canonizado, e por QUEM!

Isso é exceção, e seria grande temeridade deixarmos nossa conversão e a realização de nossa missão pessoal para o último instante de nossa vida. Estaríamos no cemitério e aí sim insubstituíveis... 

Sergio Bertoli é professor, jornalista e colaborador da ABIM



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